Davos: Ordem mundial baseada na força ameaça economia

O tema do Fórum Econômico Mundial em Davos foi “Reconstruir a Confiança”, mas a discussão central girou em torno da crescente ameaça a uma ordem mundial baseada em regras, conforme análise de Raghuram Rajan, ex-presidente do banco central da Índia.

Segundo artigo publicado no portal NeoFeed, a ordem estabelecida após a Segunda Guerra Mundial está sendo substituída por um sistema onde “a força faz o direito”.

Rajan, atualmente professor na University of Chicago Booth School of Business, aponta que esta ordem liberal permitiu décadas de paz e prosperidade. Contudo, ela está sob forte ataque, com a invasão da Ucrânia pela Rússia sendo um exemplo claro.

A agressão russa desafia diretamente o princípio da soberania nacional, um pilar do sistema internacional. A resposta do Ocidente, embora forte, não foi suficiente para deter o conflito rapidamente.

Outro ponto de tensão são os ataques dos Houthis a navios no Mar Vermelho. Essa ação perturba uma das rotas comerciais mais importantes do mundo, que passa pelo Canal de Suez.

Os ataques já estão forçando as companhias de navegação a desviar suas rotas pelo Cabo da Boa Esperança. Isso aumenta o tempo de viagem em 10 dias e eleva significativamente os custos de frete e seguro.

Esses eventos demonstram a fragilidade das cadeias de abastecimento globais. A dependência do comércio internacional torna as economias vulneráveis a choques geopolíticos localizados.

Rajan também alerta para o risco de um conflito entre a China e Taiwan. Um bloqueio ou invasão da ilha teria consequências econômicas globais muito mais severas, dada a importância de Taiwan na produção de semicondutores.

O papel das potências médias

As potências médias, como Índia, Brasil, Indonésia e Arábia Saudita, adotam uma postura de cobertura. Elas evitam se alinhar totalmente com o Ocidente, mantendo relações com todos os lados.

Essa estratégia reflete uma desconfiança na capacidade ou vontade do Ocidente de manter a ordem global. A percepção é que os países ocidentais agem seletivamente na aplicação das regras internacionais.

A invasão do Iraque em 2003, liderada pelos EUA, é frequentemente citada como um exemplo que minou a credibilidade moral do Ocidente. A ação foi realizada sem um mandato claro do Conselho de Segurança da ONU.

Para muitos no Sul Global, isso representa um padrão de dois pesos e duas medidas. A defesa da ordem baseada em regras parece depender dos interesses das grandes potências.

Caminhos para reconstruir a confiança

A alternativa a uma ordem baseada em regras é um mundo fragmentado em esferas de influência. Nesse cenário, o comércio e o investimento seriam politizados, com transações baseadas em alinhamentos geopolíticos.

Isso levaria a um mundo com custos de transação mais altos e crescimento econômico mais lento. A eficiência gerada pela globalização seria perdida em grande parte.

Rajan argumenta que a interdependência econômica por si só não é suficiente para garantir a paz. A crença de que laços comerciais profundos evitariam conflitos, como entre a Alemanha e a Rússia, provou ser equivocada.

A solução, segundo o economista, não é abandonar a ordem baseada em regras, mas fortalecê-la. Isso exigiria torná-la mais legítima e representativa aos olhos das potências emergentes.

Uma reforma crucial seria dar mais voz e poder de voto aos mercados emergentes em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

A estrutura de poder dessas organizações ainda reflete a realidade econômica do pós-guerra, não o mundo multipolar de hoje. Aumentar a representatividade fortaleceria a legitimidade do sistema.

O Ocidente enfrenta uma escolha: ou lidera a reforma da ordem global para torná-la mais equitativa ou arrisca vê-la desmoronar em um sistema onde a força prevalece, com altos custos para a prosperidade global.

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