Um forte movimento de descentralização industrial está em curso no Brasil, com grandes empresas trocando as capitais por cidades do interior. O setor de celulose lidera essa tendência, com investimentos bilionários que transformam a economia de pequenos municípios, segundo apuração da BBC News Brasil.
Em Mato Grosso do Sul, Três Lagoas se consolidou como a “capital mundial da celulose”. A cidade, que tinha 79 mil habitantes em 2007, hoje possui 132 mil. O Produto Interno Bruto (PIB) local saltou de R$ 1,4 bilhão para R$ 11,8 bilhões no mesmo período.
O estado atrai novos megaprojetos. A Suzano está investindo R$ 22,2 bilhões em uma nova fábrica em Ribas do Rio Pardo. A expectativa é gerar 10.000 empregos durante a obra e 3.000 vagas permanentes após a inauguração, prevista para o segundo semestre de 2024.
Rafael Cattan, secretário de MS, afirma que o estado oferece segurança jurídica e um bom ambiente de negócios. Ele destaca que os empreendimentos geram receita e desenvolvimento social, com a construção de escolas e hospitais como contrapartida.
No Paraná, o município de Ortigueira recebeu um investimento de R$ 12,9 bilhões da Klabin em 2021. O Projeto Puma II, de expansão da unidade de celulose, gerou cerca de 9.000 empregos. O PIB per capita da cidade cresceu 150% entre 2013 e 2020.
Em São Paulo, a Bracell investiu R$ 8 bilhões para construir a maior fábrica de celulose do mundo em Lençóis Paulista. A obra, concluída em 2021, empregou 11 mil pessoas no pico e hoje gera 6.650 empregos diretos e indiretos.
Fatores da migração industrial
Laerte Martins, economista-chefe da L4S, explica que a indústria de base, como a de celulose, busca proximidade com a matéria-prima. Estar perto das florestas de eucalipto reduz significativamente os custos logísticos, um fator crucial para a competitividade.
O custo da terra também é um atrativo. Segundo Martins, terrenos no interior são muito mais baratos do que nas regiões metropolitanas. Além disso, governos estaduais e municipais oferecem incentivos fiscais para atrair esses grandes investimentos.
Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, aponta uma mudança estrutural na indústria brasileira. O foco migrou de bens de consumo, concentrados perto dos grandes centros urbanos, para commodities como agronegócio, mineração e celulose.
Gala ressalta que a melhoria da infraestrutura logística, com ferrovias e hidrovias, viabilizou a instalação dessas indústrias longe dos portos. Isso permite que a produção seja escoada de forma mais eficiente para o mercado externo.
Esse processo de interiorização não é novo, tendo começado nos anos 1970 com a Zona Franca de Manaus. Contudo, ele se intensificou nas últimas décadas com o avanço do agronegócio e da indústria de base, que demandam grandes extensões de terra.
Desafios do crescimento acelerado
O rápido crescimento populacional gera pressão sobre os serviços públicos. Cidades como Ribas do Rio Pardo, que viu sua população aumentar em 25%, enfrentam desafios em saúde, educação, saneamento e moradia.
A demanda por mão de obra qualificada é outro gargalo. A Suzano, por exemplo, precisou criar um programa de formação para capacitar 7.000 pessoas em 18 municípios de Mato Grosso do Sul para operar suas máquinas.
Apesar dos desafios, o movimento de interiorização industrial é visto como positivo para a economia regional. Ele promove a geração de empregos e renda, além de impulsionar o desenvolvimento de infraestrutura em áreas antes menos assistidas do país.
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