Davos: Ordem mundial baseada na força ameaça a economia

O otimismo do Fórum Econômico Mundial em Davos contrasta com uma realidade global preocupante. A ordem internacional, antes baseada em regras, está sendo substituída por uma lógica de força, ameaçando a estabilidade econômica mundial.

A análise é de Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, em artigo para o portal NeoFeed. Ele aponta para os crescentes riscos geopolíticos.

Enquanto líderes empresariais e políticos debatiam inteligência artificial e transição verde em Davos, o cenário global era marcado por conflitos armados na Ucrânia e em Gaza, indicando uma grave deterioração da segurança internacional.

A ordem mundial do pós-guerra, fundamentada em regras e instituições multilaterais, está em franco declínio. A nova realidade é caracterizada por um sistema onde a força militar e o poder econômico prevalecem sobre o direito internacional.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) é um exemplo central dessa crise. Seu mecanismo de solução de controvérsias, pilar do comércio global, foi efetivamente paralisado por ações dos Estados Unidos.

A paralisação iniciou no governo Trump, com a recusa em nomear novos juízes para o órgão de apelação. A administração Biden manteve a política, neutralizando a capacidade da OMC de mediar disputas comerciais de forma eficaz.

Como resultado, países agora podem impor tarifas com poucas consequências. Um exemplo notório foram as tarifas dos EUA sobre aço e alumínio, justificadas unilateralmente com base na segurança nacional.

A interdependência econômica, antes celebrada como um pilar da paz e da prosperidade, agora é vista como uma vulnerabilidade estratégica. Países temem que rivais possam usar essa dependência como arma.

Essa nova percepção deu origem ao conceito de friend-shoring. A estratégia consiste em transferir cadeias de suprimentos para países considerados politicamente alinhados, buscando maior segurança e resiliência.

Contudo, a implementação do friend-shoring enfrenta desafios significativos. Nações “amigas” podem não possuir a capacidade produtiva ou os recursos necessários para substituir fornecedores estabelecidos, como a China.

O Vietnã, por exemplo, é frequentemente citado como alternativa. No entanto, sua economia inteira é consideravelmente menor que a da província chinesa de Guangdong, um dos maiores centros industriais do mundo.

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China é o principal motor dessa reconfiguração global. A competição abrange as esferas comercial, tecnológica e militar, gerando instabilidade em todo o sistema.

A disputa por semicondutores avançados ilustra essa tensão. Os EUA impuseram controles de exportação rigorosos para limitar o acesso da China a tecnologias de chips de ponta, visando conter seu avanço tecnológico.

Em retaliação, a China restringiu a exportação de gálio e germânio. Esses metais são cruciais para a produção de semicondutores, demonstrando a escalada do conflito tecnológico e a disposição para usar o comércio como arma.

A Lei de Redução da Inflação (IRA) dos EUA também reflete essa nova lógica protecionista. A legislação oferece vastos subsídios para a produção de tecnologias verdes, como veículos elétricos e painéis solares.

Para que as empresas se qualifiquem para os subsídios da IRA, elas precisam atender a rigorosos requisitos de conteúdo local. A lei exclui componentes e minerais de “entidades estrangeiras de preocupação”, mirando diretamente na China.

A Europa reagiu com grande preocupação, temendo uma fuga de investimentos para os EUA. A resposta europeia pode ser a criação de seus próprios pacotes de subsídios, o que arrisca iniciar uma dispendiosa corrida global por incentivos.

Essa fragmentação da economia global cria um ambiente de profunda incerteza. As regras que por décadas governaram o comércio e o investimento estão sendo rapidamente corroídas por decisões unilaterais e pela política de poder.

O otimismo de Davos sobre o potencial de inovações como a IA generativa parece, portanto, desconectado dessa realidade geopolítica. O progresso tecnológico depende de um ambiente de cooperação e estabilidade que está sob ameaça.

A implementação de novas tecnologias e a transição energética exigem investimentos massivos e colaboração internacional. Segundo Eichengreen, isso se torna extremamente difícil em um mundo onde a ordem é cada vez mais ditada pela força.

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