Indústria no interior: 75% dos empregos são criados fora das capitais

Um movimento de descentralização industrial está reconfigurando a economia brasileira. Empresas estão trocando as capitais por cidades do interior, motivadas por custos menores, logística favorável e incentivos fiscais, segundo um levantamento da BBC News Brasil.

Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam a força dessa tendência. Entre 2011 e 2021, 75% dos novos empregos na indústria de transformação foram criados em municípios fora das regiões metropolitanas. A participação do interior no total de vagas industriais subiu de 52,8% para 56,4% no período.

Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), aponta que as capitais se tornaram caras. O custo elevado de terrenos, mão de obra e impostos, somado a problemas de trânsito, desestimula a permanência das fábricas nos grandes centros urbanos.

Em contrapartida, o interior oferece vantagens logísticas. A proximidade com matérias-primas, mercados consumidores e portos é um fator decisivo. Além disso, a melhoria da infraestrutura de rodovias, energia e comunicações nas últimas décadas tornou essas regiões mais atraentes para investimentos.

Os governos locais também desempenham um papel crucial. A oferta de incentivos fiscais e a doação de terrenos são estratégias comuns para atrair novas indústrias, fomentando o desenvolvimento econômico regional e a geração de empregos qualificados.

Casos de Migração Industrial

A Toyota é um exemplo emblemático desse movimento. A montadora anunciou o fechamento de sua histórica fábrica em São Bernardo do Campo (SP), inaugurada em 1962, para concentrar a produção nas unidades de Sorocaba e Porto Feliz, também em São Paulo.

A decisão, segundo a empresa, visa a modernização e busca por mais eficiência e sustentabilidade. As plantas do interior são mais novas e adequadas às atuais demandas de produção da companhia japonesa.

Sorocaba, a 100 km da capital paulista, tornou-se um polo de atração. Em 2023, a cidade recebeu 24 novas empresas, que totalizaram R$ 4 bilhões em investimentos e a criação de 5 mil empregos. A localização estratégica, próxima às rodovias Castelo Branco e Raposo Tavares, é um diferencial.

Outro caso de destaque é o da Suzano, gigante do setor de papel e celulose. A empresa está investindo R$ 22,2 bilhões na construção de uma nova fábrica em Ribas do Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul. O projeto é um dos maiores investimentos privados do Brasil.

A nova unidade da Suzano será uma das maiores fábricas de celulose do mundo. A expectativa é gerar 10 mil empregos durante a fase de obras e outros 3 mil postos de trabalho permanentes quando a operação for iniciada.

O Impacto nas Cidades do Interior

O município de Três Lagoas (MS) é um exemplo do impacto dessa interiorização. Conhecida como a “capital mundial da celulose”, a cidade abriga unidades da Suzano e da Eldorado Brasil. Sua população saltou de 79 mil habitantes em 2007 para mais de 130 mil atualmente.

José Antonio de Souza, presidente da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas, afirma que o crescimento trouxe desenvolvimento. Contudo, ele também gerou desafios para a infraestrutura urbana, com aumento da demanda por moradia, saúde e segurança pública.

Marco Diniz, economista da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), observa que essa tendência, embora antiga, foi acelerada pela expansão do agronegócio. A indústria de alimentos, frigoríficos e usinas de açúcar e etanol segue a disponibilidade de matéria-prima no campo.

Sandro Cabral, professor do Insper, analisa o fenômeno como uma “desindustrialização” dos grandes centros. Ele menciona a “guerra fiscal” entre municípios como um dos motores da migração, onde cidades oferecem isenções tributárias para atrair investimentos.

Cabral alerta que, embora benéfica para a desconcentração, essa competição fiscal pode ser prejudicial. Municípios podem abrir mão de receitas importantes, comprometendo a oferta de serviços públicos a longo prazo para a população local.

O processo de interiorização industrial começou a ganhar força nos anos 1970 e se intensificou nos anos 1990, com a abertura econômica e as privatizações. A tendência indica um caminho contínuo de descentralização, moldando um novo mapa industrial para o Brasil.

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