A proeminência da Venezuela em concursos de beleza internacionais, como o Miss Universo, está diretamente ligada ao seu boom petrolífero do século 20. A riqueza gerada pelo petróleo financiou um projeto de modernização nacional que utilizou a beleza feminina como um de seus principais símbolos.
Antes da descoberta do petróleo, a Venezuela era um país predominantemente rural e um dos mais pobres da região. A exploração petrolífera, iniciada em grande escala na década de 1920, transformou drasticamente a economia e a sociedade venezuelana, segundo informações da BBC.
O Estado venezuelano tornou-se o principal administrador dessa riqueza, concentrando um poder econômico sem precedentes. Intelectuais como Arturo Uslar Pietri propuseram o conceito de “sembrar el petróleo” (semear o petróleo), defendendo o uso dos recursos para diversificar a economia e desenvolver o país.
Este projeto de modernização buscou criar uma identidade nacional alinhada aos padrões ocidentais. Os concursos de beleza, especialmente o Miss Venezuela, surgiram como uma ferramenta para projetar uma imagem de modernidade, progresso e sofisticação.
O concurso Miss Venezuela, transmitido pela primeira vez em 1952, rapidamente se tornou um dos programas de maior audiência do país. Ele funcionava como uma vitrine para a nação, exibindo não apenas a beleza das mulheres, mas também o sucesso do projeto modernizador financiado pelo petróleo.
A pesquisadora Marcia Ochoa, em seu livro “Queen for a Day”, descreve o concurso como um “espetáculo de desenvolvimento”. As vencedoras encarnavam o ideal de uma Venezuela moderna, cosmopolita e ocidentalizada, distanciando-se da imagem rural do passado.
A figura de Osmel Sousa, conhecido como o “Czar da Beleza”, foi fundamental para a profissionalização do Miss Venezuela. Ele assumiu a direção do concurso nos anos 1980 e o transformou em uma “fábrica de rainhas”, com um método rigoroso de preparação das candidatas.
Sousa via o concurso não apenas como um evento cultural, mas como um negócio lucrativo e uma indústria. Sua gestão focou em produzir vencedoras para os concursos internacionais, consolidando a reputação da Venezuela como uma superpotência da beleza.
A indústria da beleza no país cresceu em torno do concurso, movimentando setores como cirurgia plástica, odontologia estética, moda e cosméticos. O evento tornou-se uma plataforma de ascensão social para muitas jovens, refletindo a promessa de mobilidade da era petrolífera.
A socióloga Esther Pineda aponta que o concurso reforçou um padrão de beleza eurocêntrico, com traços como pele clara, cabelos lisos e olhos claros sendo valorizados. Esse padrão era consistente com o ideal de modernidade que o país buscava projetar.
O concurso também cumpria uma função social importante, servindo como um elemento de união nacional. Em um país politicamente polarizado, a torcida por uma candidata no Miss Universo era um dos poucos momentos que unia todos os venezuelanos.
Durante crises econômicas e políticas, a transmissão do Miss Venezuela funcionava como uma distração para a população, um espetáculo de luxo e fantasia que contrastava com as dificuldades do dia a dia. Era uma forma de manter viva a ilusão de prosperidade.
Existe um paralelo entre a indústria do petróleo e a dos concursos de beleza. Ambas são extrativistas: uma extrai petróleo do subsolo, e a outra “extrai” a beleza das mulheres, lapidando-as para transformá-las em um produto de exportação valioso.
Com a profunda crise econômica que atingiu a Venezuela nas últimas décadas, o glamour e a influência do Miss Venezuela diminuíram. A falta de recursos e o êxodo de talentos impactaram a capacidade do concurso de manter seu antigo esplendor.
Apesar do declínio, o mito da beleza venezuelana persiste. A conexão histórica entre a riqueza do petróleo e a construção dessa identidade nacional mostra como recursos econômicos podem ser usados para moldar a cultura e a imagem de um país no cenário global.
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