O mundo vive um “regime de restrição” e o maior risco para o Brasil não é externo, mas sim a política fiscal interna. A análise é de Bhanu Baweja, estrategista-chefe global do banco UBS, em entrevista ao portal NeoFeed.
Segundo Baweja, o crescimento global é “medíocre”. Ele observa que, enquanto a economia dos Estados Unidos se mostra forte, a China enfrenta uma “recessão de balanço” e a Europa está estagnada, sem crescimento.
O principal desafio para a economia global continua sendo a inflação. Nos EUA, o núcleo do PCE, indicador preferido do Federal Reserve (Fed), está em 2,8%. O valor permanece acima da meta de 2% da autoridade monetária.
Baweja descreve o esforço para reduzir a inflação até a meta como a “última milha”, considerada a parte mais difícil do processo. Para ele, o mercado está excessivamente otimista em relação à velocidade dos cortes de juros pelo Fed.
A projeção do UBS é de apenas dois cortes na taxa de juros americana em 2024, previstos para setembro e dezembro. A instituição acredita que o Fed, sob o comando de Jerome Powell, manterá uma postura cautelosa e dependente dos dados.
Para o Brasil, o estrategista do UBS afirma que o principal risco é “idiossincrático”, ou seja, gerado internamente. Ele destaca a questão fiscal como o ponto de maior atenção para os investidores e para a estabilidade econômica do país.
A meta de déficit primário zero estabelecida pelo governo é a principal âncora fiscal. Baweja alerta que, se essa meta for abandonada, a credibilidade da política econômica brasileira pode ser severamente questionada pelos mercados.
Ele adverte que a perda de credibilidade fiscal pode desencadear uma “reação em cadeia”. Esse cenário inclui aumento das expectativas de inflação, desvalorização do câmbio e elevação das taxas de juros futuras.
Tal deterioração forçaria o Banco Central, presidido por Roberto Campos Neto, a adotar uma política monetária mais restritiva. Isso significaria manter a taxa Selic em patamares mais elevados por um período prolongado.
Baweja elogiou a atuação do Banco Central brasileiro, afirmando que a instituição “fez o que precisava ser feito”. Contudo, ele ressalta que a eficácia da política monetária está diretamente ligada à percepção de credibilidade da política fiscal.
O UBS projeta que a taxa Selic encerrará o ano em 10,25%. Essa estimativa, no entanto, está condicionada à manutenção do arcabouço fiscal e da meta de déficit zero pelo governo.
O estrategista considera que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem realizado um “trabalho crível” na condução da economia. Ainda assim, o risco político de uma eventual mudança na meta fiscal continua sendo uma preocupação central.
Na visão de Baweja, se o Brasil conseguir manter a disciplina fiscal, estará mais bem posicionado para navegar em um cenário global que, embora restritivo, pode apresentar menos volatilidade adiante.
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