Tancredo da Silva Pinto, conhecido como o “papa negro da umbanda”, foi a figura central na transformação do culto a Iemanjá no Rio de Janeiro. Ele idealizou e organizou o que se tornaria o Réveillon de Copacabana, um dos maiores eventos a céu aberto do mundo.
Nascido em 1905 em Cantagalo (RJ), Tancredo foi iniciado no candomblé de nação angola, recebendo o nome de Tat’ Tancredo. Ele se tornou uma liderança influente, buscando unir os terreiros e dar visibilidade às religiões de matriz africana, que sofriam forte perseguição policial nas décadas de 1930 e 1940.
Segundo o historiador Leonardo Cunha, autor de “Cem anos de umbanda”, Tancredo tinha uma visão estratégica. Ele utilizava os jornais da época para promover a umbanda, buscando legitimidade e espaço na sociedade, conforme aponta uma reportagem da BBC News Brasil.
A perseguição era intensa. Terreiros eram invadidos e objetos sagrados, apreendidos. Para praticar seus cultos, os umbandistas precisavam de autorização policial e, muitas vezes, disfarçavam suas cerimônias. Tancredo atuou para mudar essa realidade, defendendo a união dos praticantes.
A Estratégia de Unificação
Em 1941, Tancredo participou da fundação da Federação Espírita de Umbanda, que mais tarde se tornou a Confederação Umbandista do Brasil. A professora Stela Guedes Caputo destaca que ele foi um dos primeiros a pensar a umbanda como um movimento social organizado e unido.
Tancredo defendia a criação de uma “bancada umbandista” e incentivava a participação política. Ele acreditava que a união era fundamental para combater o preconceito e garantir a liberdade de culto. Sua atuação foi crucial para a organização institucional da religião.
Ele também escreveu diversos livros sobre a umbanda, buscando registrar e difundir os conhecimentos da religião. Autores como F. Rivas Neto e José Beniste o consideram um dos maiores conhecedores dos ritos afro-brasileiros de sua época, sendo uma referência intelectual e espiritual.
A Criação do Réveillon em Copacabana
As homenagens a Iemanjá já ocorriam, mas de forma discreta, em praias como a de Ramos. Tancredo teve a ideia de levar a celebração para Copacabana, o principal cartão-postal do Rio de Janeiro. O objetivo era claro: dar máxima visibilidade à fé umbandista.
A primeira celebração organizada por ele em Copacabana ocorreu nos anos 1950. Com o tempo, o evento cresceu exponencialmente. Em 1955, o Jornal do Brasil já noticiava a festa, descrevendo as “macumbas” na praia e a presença de milhares de pessoas.
A estratégia de Tancredo foi bem-sucedida. A festa de Iemanjá se tornou um evento de massa, atraindo não apenas umbandistas, mas também turistas e curiosos. A imprensa, que antes cobria de forma pejorativa, passou a tratar a celebração como um grande acontecimento da cidade.
Jornais como O Dia e O Globo passaram a dar ampla cobertura ao evento, que se consolidou como a principal festa de Ano-Novo do Brasil. Tancredo conseguiu inserir a celebração umbandista no calendário oficial e cultural do Rio de Janeiro.
Legado e Reconhecimento
Tancredo da Silva Pinto faleceu em 1979, mas seu legado permanece. Ele foi o arquiteto de um movimento que tirou a umbanda da marginalidade e a projetou nacionalmente. Sua visão estratégica transformou uma cerimônia religiosa em um fenômeno cultural e turístico.
O Réveillon de Copacabana, hoje um evento que atrai milhões de pessoas, tem suas raízes na coragem e na organização deste líder religioso. Ele utilizou o espaço público e a mídia para lutar por liberdade religiosa e afirmar a identidade da umbanda no Brasil.
Sua biografia mostra a importância da organização social e da ocupação de espaços para a conquista de direitos. A festa de Iemanjá, popularizada por ele, é um exemplo de como uma manifestação cultural pode se integrar à identidade de uma cidade e de um país.
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