A ascensão da Venezuela como potência em concursos de beleza está diretamente ligada ao seu boom petrolífero. O chamado “mito da beleza venezuelana” foi construído com base nos petrodólares que inundaram o país, financiando uma indústria que se tornou parte da identidade nacional.
Segundo uma análise da BBC, a correlação entre as vitórias em concursos internacionais e a riqueza do petróleo não é uma coincidência. A era de ouro do país permitiu a criação de uma sofisticada “fábrica de misses”.
A Era Osmel Sousa
A profissionalização dos concursos começou com Osmel Sousa, conhecido como o “czar da beleza”. Ele assumiu a organização do Miss Venezuela nos anos 1970, transformando-o em um espetáculo de grande audiência e um negócio lucrativo, transmitido pela televisão.
Sousa implementou um regime rigoroso de preparação. As candidatas passavam por um treinamento intensivo que incluía aulas de passarela, oratória e até mesmo cirurgias plásticas. O objetivo era criar um protótipo de beleza específico para vencer competições internacionais.
O sucesso veio rapidamente. Em 1979, Maritza Sayalero foi a primeira venezuelana a vencer o Miss Universo. Dois anos depois, em 1981, Irene Sáez conquistou o mesmo título, consolidando a reputação do país no cenário global da beleza.
O Financiamento do Petro-Estado
Esse sucesso foi impulsionado pelo “petro-Estado”. A riqueza gerada pela exportação de petróleo financiava não apenas a infraestrutura, mas também projetos culturais e sociais, incluindo os concursos de beleza. O Estado via os concursos como uma forma de projeção internacional.
Empresas estatais e privadas, beneficiadas pela economia petrolífera, patrocinavam massivamente os eventos. A bonança econômica permitiu que famílias de classe média investissem altas somas na preparação de suas filhas, sonhando com o título de miss.
Para muitas jovens, vencer o Miss Venezuela era visto como uma oportunidade de ascensão social. O concurso abria portas para carreiras na televisão, na política ou para casamentos vantajosos, tornando-se um objetivo de vida para muitas famílias.
A ‘Fábrica de Misses’
O método de Sousa era industrial. Ele selecionava jovens com potencial e as submetia a uma transformação completa. A ex-miss Inés María Calero relatou que Sousa controlava desde a dieta até as intervenções cirúrgicas das candidatas.
As cirurgias plásticas se tornaram comuns e até esperadas. Procedimentos como rinoplastia, mamoplastia de aumento e lipoaspiração eram parte do processo de “aperfeiçoamento” das candidatas para que se encaixassem no padrão de beleza desejado por Sousa.
Esse modelo, embora bem-sucedido em termos de títulos, também gerou críticas. O sistema foi acusado de promover um padrão de beleza irreal e de objetificar as mulheres, transformando-as em um produto de exportação não tradicional, assim como o petróleo.
Impacto Social e Declínio
O “mito da beleza” se enraizou na cultura venezuelana. A imagem da mulher venezuelana como a “mais bela do mundo” tornou-se um pilar do orgulho nacional, uma narrativa promovida pelo Estado e pela mídia durante décadas de prosperidade econômica.
Com a grave crise econômica que atingiu o país, a indústria da beleza também sofreu. A hiperinflação e a escassez tornaram os custos de preparação, como cirurgias e roupas de grife, inacessíveis para a maioria da população.
Os patrocínios diminuíram drasticamente, e o glamour do Miss Venezuela perdeu força. A crise expôs a dependência que a indústria da beleza tinha da economia petrolífera. Sem os petrodólares, o modelo que sustentou o “mito” por tanto tempo entrou em colapso.
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