O México se tornou o principal parceiro comercial dos Estados Unidos em 2023, superando a China pela primeira vez em duas décadas. As exportações mexicanas para o vizinho do norte atingiram US$ 475,6 bilhões, conforme dados do governo americano e análise da BBC.
Essa mudança foi acelerada pela guerra comercial iniciada em 2018 pelo então presidente Donald Trump. As tarifas impostas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses tornaram as importações do país asiático mais caras para os consumidores americanos.
O objetivo de Trump era proteger a indústria americana, mas um dos principais efeitos foi o redirecionamento do comércio. Países como o México, que possui um acordo de livre comércio com EUA e Canadá (T-MEC), se beneficiaram diretamente dessa conjuntura.
A pandemia de Covid-19 e as interrupções nas cadeias de suprimentos globais também impulsionaram o fenômeno do nearshoring. Empresas americanas passaram a buscar fornecedores mais próximos geograficamente para reduzir riscos e custos logísticos, favorecendo a indústria mexicana.
Em 2023, o investimento estrangeiro direto no México atingiu um recorde de US$ 36 bilhões. Grande parte desse capital foi direcionada para a construção de novas fábricas, especialmente no norte do país, próximo à fronteira com os EUA.
A cidade de Monterrey, no estado de Nuevo León, tornou-se um polo de atração para esses investimentos. A região é um exemplo do dinamismo industrial impulsionado pelo nearshoring, com a construção de parques industriais para abrigar novas operações.
Um dos anúncios mais significativos foi o da Tesla, que planeja construir uma de suas maiores fábricas globais em Monterrey. A expectativa é que o projeto atraia uma cadeia de fornecedores e gere um forte impacto econômico na região.
Apesar do cenário positivo, o México enfrenta desafios estruturais significativos para sustentar esse crescimento. A infraestrutura do país, especialmente a energética, é uma das principais preocupações para os investidores e analistas.
A rede elétrica mexicana é considerada insuficiente para atender à crescente demanda industrial. Recentemente, o país sofreu uma série de apagões que afetaram milhões de pessoas e diversas fábricas, evidenciando a fragilidade do sistema.
O presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) reverteu as reformas energéticas de seu antecessor, que abriam o setor para o investimento privado. A política de AMLO prioriza as empresas estatais CFE (eletricidade) e Pemex (petróleo), limitando a participação privada.
Segundo Gabriela Siller, economista-chefe do Grupo Financiero Base, essa política energética é um dos maiores obstáculos. Ela afirma que, sem mudanças, o México corre o risco de perder a oportunidade histórica gerada pelo nearshoring.
Outro desafio crítico é a escassez de água, especialmente no norte industrializado do país. Em 2022, Monterrey enfrentou uma grave crise hídrica, com racionamento de água para a população e a indústria, o que gera incerteza para novos projetos.
A segurança pública também continua sendo um problema grave. A violência ligada ao crime organizado afeta a logística e a segurança dos investimentos. A extorsão e o roubo de cargas são problemas recorrentes que impactam as operações das empresas.
O Estado de direito é outra área de preocupação. Investidores apontam a falta de certeza jurídica e a corrupção como barreiras importantes para a expansão dos negócios no país.
O futuro do México será decidido nas eleições presidenciais de 2 de junho. A candidata governista, Claudia Sheinbaum, é a favorita nas pesquisas e representa a continuidade das políticas de López Obrador.
Sheinbaum, ex-prefeita da Cidade do México, propõe um plano de US$ 13,6 bilhões para investir em energias renováveis. No entanto, ela também defende a manutenção do controle estatal sobre o setor energético, o que gera dúvidas no mercado.
A principal candidata da oposição, Xóchitl Gálvez, tem uma plataforma mais favorável ao mercado. Ela propõe a reabertura do setor energético ao investimento privado para modernizar a infraestrutura e garantir o fornecimento para a indústria.
Para analistas, o resultado da eleição será um teste decisivo. A próxima administração precisará abordar os gargalos de infraestrutura, segurança e Estado de direito para que o México possa capitalizar plenamente a oportunidade do nearshoring.
O país se encontra em uma encruzilhada. A capacidade do novo governo de resolver esses problemas estruturais determinará se o México consolidará sua posição como principal parceiro comercial dos EUA ou se perderá uma oportunidade única de desenvolvimento econômico.
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