Brasileiros que vivem no Japão enfrentam o risco de deportação por não conseguirem pagar suas dívidas. A inadimplência impede a renovação do visto de permanência, afetando uma comunidade com mais de 211 mil pessoas, a quinta maior estrangeira no país.
A situação atinge principalmente os chamados dekasseguis, que chegaram nos anos 1990 para trabalhar em fábricas. Para renovar o visto, é preciso comprovar estabilidade de vida, o que inclui ter um emprego fixo e estar em dia com os impostos, segundo um relatório da BBC Brasil.
A Agência de Serviços de Imigração do Japão pode negar a renovação do visto se considerar que a base de vida do estrangeiro é instável. Yoshihisa Saito, oficial da agência, confirmou que a capacidade de levar uma vida estável é um critério fundamental na análise.
O advogado Toshio Odajima, especialista em imigração, relata que dívidas a partir de 500 mil ienes (cerca de R$ 16,5 mil) já são suficientes para barrar a renovação do visto. Ele afirma que o número de consultas sobre o tema aumentou nos últimos anos.
Masako Suzuki, chefe da Seção de Serviços Internacionais e para Estrangeiros da Federação Japonesa de Associações de Advogados, reforça o problema. Segundo ela, mesmo dívidas pequenas de impostos municipais podem ser um obstáculo para a permanência legal no país.
A pandemia de Covid-19 agravou o cenário financeiro para muitos brasileiros. Com a redução da produção industrial, vários perderam seus empregos ou tiveram a renda diminuída, dificultando o pagamento de compromissos financeiros e impostos.
Para aumentar o controle, o governo japonês, sob a gestão de Taro Kono, ministro da Transformação Digital, incentiva a adesão ao “My Number Card”. O cartão unifica informações como seguro de saúde e contas bancárias, o que pode facilitar a cobrança de dívidas.
A falta de educação financeira é apontada como uma das causas do endividamento. Yasuhiro Higa, diretor da organização sem fins lucrativos ABC Japan, auxilia brasileiros com renegociação de dívidas e orientação financeira.
Higa relata que muitos imigrantes se endividam com financiamentos de carros caros ou cartões de crédito para manter um estilo de vida específico. A pressão social e a facilidade de crédito contribuem para o problema, levando alguns a recorrerem a agiotas.
Um caso emblemático foi o de um brasileiro que acumulou uma dívida de 1,5 milhão de ienes (R$ 50 mil). Sem conseguir renovar seu visto, ele foi forçado a retornar ao Brasil, deixando para trás sua esposa e filhos, que permaneceram no Japão.
A comunidade brasileira, antes vista como mão de obra temporária, estabeleceu raízes no Japão. No entanto, a instabilidade econômica e o endividamento agora representam uma ameaça real à permanência de milhares de famílias no país.
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