O Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, evidenciou a transição de uma ordem global baseada em regras para uma fundamentada na força. A análise é de Paulo Vicente, em artigo publicado no portal NeoFeed.
O encontro, que já foi palco de otimismo, hoje reflete um mundo mais pessimista. A visão de uma nova era de paz e prosperidade, impulsionada pela globalização e democracia liberal nos anos 1990, foi substituída por um cenário de incertezas e conflitos.
Klaus Schwab, fundador do Fórum, destacou o tema “Reconstruindo a Confiança” em um momento de profunda desconfiança. A percepção é que a ordem mundial está se desintegrando, com a ascensão de uma lógica onde a força prevalece sobre o direito internacional.
Um relatório do próprio Fórum Econômico Mundial aponta que há uma chance de 2/3 de uma ordem multipolar ou fragmentada se estabelecer na próxima década. Essa fragmentação é um dos maiores riscos globais identificados.
A guerra na Ucrânia e a crise em Gaza são exemplos claros dessa nova realidade. Ações militares e a busca por poder se sobrepõem às instituições multilaterais, como a ONU, que demonstram incapacidade de mediar e resolver tais disputas.
A ascensão da China e o declínio relativo dos Estados Unidos são fatores centrais nessa mudança. A competição entre as duas potências gera instabilidade e realinha as alianças globais, afetando diretamente a economia mundial.
O conceito de “nova ordem mundial” surge nesse contexto, mas não como um sistema cooperativo. Trata-se de um cenário de poder disputado, onde cada nação ou bloco busca seus próprios interesses, muitas vezes em detrimento da estabilidade coletiva.
A globalização, como era conhecida, está em xeque. O termo “nova globalização” ou “desglobalização” descreve um processo de reconfiguração das cadeias de suprimentos. Empresas agora priorizam a segurança e a resiliência em detrimento da eficiência de custos.
Práticas como nearshoring e friendshoring ganham força. As empresas buscam produzir em países geograficamente próximos ou politicamente alinhados, reduzindo a dependência de nações consideradas rivais ou instáveis.
Essa mudança gera consequências econômicas diretas. A fragmentação das cadeias produtivas globais resulta em menor eficiência, o que, por sua vez, contribui para pressões inflacionárias persistentes em todo o mundo.
A ordem liberal que vigorou por décadas, baseada em comércio aberto e cooperação, está sendo substituída por um ambiente de protecionismo. As nações passam a proteger suas indústrias e tecnologias, limitando o fluxo de bens e capitais.
Essa nova dinâmica geopolítica e econômica foi o pano de fundo das discussões em Davos. Os líderes mundiais e empresariais debateram como navegar em um ambiente onde a cooperação perde espaço para a competição acirrada.
Para Paulo Vicente, o desafio é encontrar caminhos para reconstruir a confiança em um mundo que parece caminhar para a fragmentação. A ameaça de uma ordem baseada puramente na força coloca em risco a prosperidade e a paz globais.
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