A ascensão da Venezuela como potência mundial em concursos de beleza está diretamente ligada ao boom petrolífero do século 20. A riqueza gerada pelo petróleo financiou a criação do que se tornou conhecido como o “mito da beleza venezuelana”, um projeto de identidade nacional.
O conceito de “petro-estado” é central para entender essa dinâmica. O Estado venezuelano, sustentado por receitas do petróleo, utilizou esses recursos para moldar uma imagem de modernidade e sofisticação, na qual a mulher e sua beleza desempenhavam um papel fundamental como produto de exportação.
Segundo informações da BBC, a década de 1970 foi um ponto de virada. Com a alta dos preços do petróleo, o país viveu um período de grande prosperidade econômica, conhecido como “Venezuela Saudita”, permitindo investimentos maciços em setores diversos, incluindo a indústria da beleza.
Nesse período, o concurso Miss Venezuela, sob a direção de Osmel Sousa, conhecido como o “czar da beleza”, se profissionalizou. Sousa transformou o evento em uma “fábrica de rainhas”, com um método rigoroso que envolvia selecionar jovens e submetê-las a um intenso preparo.
Esse preparo incluía não apenas aulas de passarela e oratória, mas também extensas intervenções estéticas e cirurgias plásticas. O objetivo era criar um padrão de beleza específico, que se tornaria a marca registrada do país em competições internacionais como o Miss Universo e o Miss Mundo.
O financiamento estatal e de empresas privadas, impulsionado pela economia petrolífera, era crucial. Patrocinadores cobriam os altos custos de produção do concurso, que era transmitido pela televisão e alcançava audiências massivas, reforçando o ideal de beleza em toda a sociedade.
A pesquisadora Carolina Acosta-Alzuru aponta que essa construção da beleza feminina servia como um símbolo do progresso e da modernidade que o petróleo supostamente trazia ao país. A miss era a personificação de uma nação rica, ocidentalizada e bem-sucedida.
Para o historiador Miguel Ángel Campos, o Estado venezuelano usou essa imagem para se projetar internacionalmente. Em um cenário de Guerra Fria, a beleza das misses funcionava como uma ferramenta de soft power, apresentando uma face amigável e desenvolvida da Venezuela ao mundo.
Essa estratégia foi chamada por especialistas de “geopolítica da beleza”. Enquanto outros países exportavam produtos manufaturados ou tecnologia, a Venezuela exportava um ideal estético, consolidando sua reputação nos palcos globais e criando um forte senso de orgulho nacional em torno das vitórias.
A escritora Esther Pineda G. destaca que esse modelo criou uma imensa pressão social sobre as mulheres venezuelanas. A beleza deixou de ser um atributo natural para se tornar um capital a ser construído, muitas vezes com altos custos financeiros e físicos.
A popularização da cirurgia plástica no país é um reflexo direto desse fenômeno. Procedimentos como rinoplastia e implantes mamários se tornaram comuns, vistos como investimentos necessários para alcançar o padrão de beleza estabelecido e, consequentemente, obter ascensão social e econômica.
O mito, portanto, não se baseava em uma beleza inata, mas em um processo de produção industrial. As misses eram o produto final de uma linha de montagem que dependia diretamente dos petrodólares para funcionar, desde a seleção das candidatas até sua coroação internacional.
Com o colapso da indústria petrolífera e a profunda crise econômica que atingiu a Venezuela nas últimas décadas, o modelo de financiamento da indústria da beleza também foi impactado. No entanto, o ideal cultural construído ao longo de décadas permanece forte no imaginário coletivo do país.
A conexão entre o petróleo e a beleza revela como recursos econômicos podem ser utilizados para construir e disseminar uma identidade nacional. Na Venezuela, a riqueza extraída do subsolo foi convertida em capital simbólico, moldando a cultura e a sociedade por gerações.
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