A febre especulativa do ‘Play-to-Earn’ (P2E) acabou. A maioria dos projetos que prometiam renda passiva através de jogos colapsou sob o peso de economias insustentáveis. Os sobreviventes são aqueles que entenderam a transição para o modelo ‘Play-and-Own’ (P&O), onde a propriedade do ativo digital é uma consequência da jogabilidade, não o objetivo principal.
A pergunta que o mercado se faz não é mais ‘qual jogo paga mais?’, mas sim ‘qual jogo tem uma economia que não depende de um fluxo infinito de novos jogadores?’. A resposta está na análise de seus fundamentos econômicos e na qualidade do produto como jogo.
Análise de Sobrevivência: O que Mudou nos Jogos NFT para 2026?
O mercado de jogos NFT em 2026 é o resultado de uma depuração forçada. O modelo P2E original, que funcionava como um funil onde o capital de novos entrantes pagava os antigos, provou-se um fracasso estrutural. A mudança fundamental foi o abandono da premissa de ‘ganhar dinheiro jogando’ como principal atrativo.
Os projetos que se mantiveram relevantes pivotaram para uma abordagem centrada no produto. A tecnologia blockchain deixou de ser o show principal para se tornar uma infraestrutura de suporte para a propriedade real de ativos. Isso significa que o valor não deriva da especulação sobre recompensas inflacionárias, mas da utilidade e escassez dos ativos dentro de um ecossistema funcional.
A sustentabilidade agora é medida pela capacidade de um jogo em criar ‘ralos de token’ (token sinks) eficazes. Mecanismos como crafting, upgrades de itens, taxas de transação e cosméticos que retiram tokens de circulação são agora mais importantes do que as ‘torneiras’ (token faucets) que distribuem recompensas. O futuro dos jogos play-to-earn depende desse equilíbrio.
Axie Infinity Hoje: De Hype Especulativo a Ecossistema Digital
O caso do Axie Infinity é emblemático. O jogo que definiu o boom do P2E em 2021 quase desapareceu com a hiperinflação do seu token de recompensa, o SLP. A recuperação do projeto não veio de uma nova onda de hype, mas de reformas estruturais profundas.
A principal mudança foi o lançamento do Axie Infinity: Origins, uma versão do jogo focada na habilidade (skill-based) e com uma economia interna redesenhada. As recompensas em SLP foram drasticamente reduzidas e atreladas ao desempenho em rankings competitivos, premiando os jogadores mais engajados em vez de operações de ‘farm’ em massa.
Além disso, o ecossistema expandiu. O desenvolvimento do gameplay de ‘lands’ e o fortalecimento da blockchain Ronin como uma plataforma para outros jogos criaram novas fontes de demanda para os tokens AXS e SLP. Dados da DappRadar de Q4 2025 mostram que, embora a base de jogadores diários seja significativamente menor que o pico, o volume transacionado por usuário ativo aumentou, indicando uma comunidade com maior poder de compra e foco no longo prazo.
Outros Modelos que Provaram Resiliência no Mercado
Axie Infinity não foi o único a se adaptar. Outros projetos sobreviveram por já terem nascido com uma mentalidade diferente, focada na experiência do jogador tradicional.
Gods Unchained é um exemplo claro. Trata-se de um Trading Card Game (TCG) digital que compete em qualidade com gigantes do setor como Hearthstone. A blockchain aqui serve a um propósito claro: garantir a propriedade real das cartas, permitindo que sejam livremente negociadas. A economia funciona porque o valor está nas cartas e na estratégia, não em um token de recompensa inflacionário.
Outro caso é Illuvium, que apostou em gráficos de alta qualidade (AAA) e uma jogabilidade complexa desde o início. O projeto atraiu capital e jogadores do mercado tradicional, que veem os NFTs como uma evolução natural dos itens digitais, e não como um instrumento puramente financeiro. A receita do projeto, distribuída aos detentores do token ILV via staking, vem de fontes diversificadas dentro do jogo, como taxas de marketplace e venda de itens primários.
Avaliando Tokens de Jogos: Métricas Além do Marketing
Para o profissional de finanças ou investidor, analisar tokens de jogos exige um framework que vai além da análise de whitepapers e promessas de marketing. A diligência deve se concentrar na saúde econômica do ecossistema.
- Utilidade Real do Token: O token serve apenas como recompensa ou possui funções de governança, staking com receita real (não inflacionária) ou é necessário para ações importantes dentro do jogo? Tokens com múltiplas funções tendem a ter uma demanda mais estável.
- Fontes de Receita do Projeto: A tesouraria do jogo é financiada pela venda de tokens a novos investidores ou por atividades econômicas genuínas, como taxas de transação no marketplace, venda de cosméticos e passes de temporada? A segunda opção é o único modelo sustentável.
- Métricas On-Chain e de Engajamento: Analise o número de carteiras ativas diárias (DAW), o volume do marketplace e a retenção de jogadores. Uma base de usuários estável ou em crescimento, mesmo que pequena, é um indicador mais saudável do que picos de usuários atraídos por recompensas insustentáveis.
A era de avaliar um jogo apenas pelo seu potencial de valorização do token acabou. Hoje, a análise se assemelha à de uma empresa de SaaS: o produto é bom? Ele retém seus usuários? Ele gera receita de forma consistente? Se a resposta para essas perguntas for sim, a tecnologia blockchain se torna um poderoso diferencial competitivo, não uma muleta econômica.
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