Um novo mercado de serviços está crescendo no Brasil impulsionado por mudanças demográficas. A profissão de ‘acompanhante de saúde’ ou ‘acompanhante sênior’ ganha espaço à medida que a população envelhece e as famílias se tornam menores, criando uma demanda por suporte qualificado.
A mudança no perfil familiar brasileiro, com uma taxa de fecundidade de 1,6 filho por mulher, e o aumento da longevidade criam um cenário onde idosos necessitam de apoio. Muitas vezes, os filhos não podem oferecer a assistência necessária devido a rotinas de trabalho ou por morarem distantes.
Leticia Kater, cofundadora do Grupo Ativa, uma das empresas que estruturam esse serviço, relata que a ideia surgiu de uma necessidade pessoal. Sua mãe precisava de companhia para atividades diárias, como consultas médicas e passeios, mas não de um cuidador em tempo integral.
A empresa de Kater conecta famílias a profissionais autônomos. Os serviços são cobrados por hora, com valores que variam de R$ 50 a R$ 150. O Grupo Ativa faturou R$ 3,5 milhões em 2023 e projeta alcançar R$ 8 milhões em 2024, segundo informações da BBC News Brasil.
O que fazem esses profissionais?
Diferente do cuidador tradicional, focado em higiene e alimentação, o acompanhante de saúde atua no bem-estar geral. Suas tarefas incluem organizar consultas, acompanhar em exames, estimular atividades físicas e cognitivas, e oferecer companhia para combater a solidão.
Patrícia Cruz, sócia de Kater, explica que o profissional ajuda a manter a autonomia do idoso. Eles atuam como um elo entre a família, os médicos e o idoso, garantindo que as recomendações de saúde sejam seguidas e que a pessoa se mantenha ativa socialmente.
Maísa Kairalla, coordenadora do centro de idosos do Hospital Sírio-Libanês e professora da USP, destaca a importância da função. Ela afirma que o acompanhante pode identificar precocemente problemas de saúde, como confusão mental ou perda de apetite, e comunicá-los à família.
Envelhecimento, solidão e oportunidades
O Brasil está envelhecendo rapidamente. A projeção é que o número de pessoas com 60 anos ou mais chegue a 58,2 milhões em 2060, representando quase 25% da população. Em 2022, cerca de 5 milhões de idosos moravam sozinhos, conforme dados do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon e Datafolha.
Alexandre da Silva, diretor do instituto, afirma que a solidão é um problema crescente. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva revelou que 69% dos idosos no Brasil sentem algum grau de solidão, e 13% se sentem constantemente sozinhos.
Este cenário demográfico abriu uma oportunidade de negócio. A seguradora Tokio Marine investiu R$ 1 milhão no Grupo Ativa. A empresa passou a oferecer o serviço de acompanhante sênior como uma assistência em seus seguros de vida, sem custo adicional para o cliente.
Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, aponta que a ‘economia prateada’, voltada para o público 60+, movimentou R$ 2 trilhões em 2023. Ele ressalta que esse público tem necessidades específicas que o mercado precisa atender, incluindo serviços de companhia qualificada.
Regulamentação e formação
Apesar do crescimento, a profissão de acompanhante sênior ainda não é regulamentada no Brasil, assim como a de cuidador de idosos. Marília Berzins, coordenadora do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (OLHE), defende a criação de políticas públicas para o setor.
Berzins argumenta que a falta de regulamentação deixa uma lacuna na formação e nos direitos desses profissionais. Ela enfatiza a necessidade de um sistema nacional de cuidados que integre saúde e assistência social, garantindo qualidade e segurança tanto para os idosos quanto para os trabalhadores.
Enquanto a regulamentação não avança, empresas como o Grupo Ativa criam seus próprios processos de seleção e treinamento. A empresa exige formação na área da saúde e realiza uma curadoria rigorosa para garantir a qualificação dos profissionais em sua plataforma.
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