BC: Lula indica Paulo Picchetti, crítico da Faria Lima

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou o economista Paulo Picchetti para a diretoria de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central (BC). Picchetti é professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre).

A indicação ocorre em um momento de críticas do governo à política de juros do BC, presidido por Roberto Campos Neto. Para assumir o cargo, Picchetti precisa ser aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e, em seguida, pelo plenário do Senado Federal.

Conhecido por suas posições críticas ao consenso do mercado financeiro, apelidado de “Faria Lima”, Picchetti questiona a eficácia da alta de juros para combater todos os tipos de inflação. Sua nomeação é vista como um movimento para alinhar a diretoria do BC a uma visão mais desenvolvimentista.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, citada em reportagem da BBC News Brasil, Picchetti argumentou que a política monetária tem efeito limitado sobre a inflação de alimentos, por exemplo. Ele defende que choques de oferta não devem ser combatidos com aumentos na taxa de juros.

O economista é considerado parte de um grupo de economistas heterodoxos, que divergem da linha mais ortodoxa predominante no mercado. Ele é um estudioso do conceito de “inércia inflacionária”, um tema central no debate econômico brasileiro das últimas décadas.

A inércia inflacionária descreve a resistência da inflação em ceder, mesmo com a queda da demanda. Segundo essa visão, a inflação passada se projeta para o futuro através de mecanismos de reajuste de preços e salários, criando um ciclo vicioso.

Picchetti possui um histórico técnico robusto. Ele coordenou por anos o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, um dos principais indicadores de inflação do país. Atualmente, na FGV/Ibre, ele coordena os Índices Gerais de Preços (IGPs), como o IGP-M.

Sua experiência na medição da inflação lhe confere credibilidade técnica, mesmo entre economistas de correntes distintas. Essa bagagem é vista como um ponto positivo para sua aprovação no Senado, apesar de suas posições heterodoxas.

A indicação de Picchetti é a terceira feita por Lula para a diretoria do BC. Caso aprovado, ele se juntará a Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária, e Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização, ambos também nomeados pelo atual governo.

Com essas nomeações, o governo busca aumentar sua influência nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que define a taxa básica de juros, a Selic. O Copom é composto pelo presidente e pelos oito diretores do BC.

O mandato de Roberto Campos Neto na presidência do BC termina em dezembro de 2024. A partir de então, Lula poderá indicar o novo presidente e mais dois diretores, consolidando uma maioria de indicados por seu governo no comitê.

A expectativa é que a nomeação de Picchetti intensifique o debate sobre a meta de inflação. Economistas ligados ao governo e ao PT defendem a revisão da meta atual, de 3%, por considerá-la excessivamente rigorosa para a realidade brasileira.

Picchetti já se manifestou sobre o tema, afirmando que a discussão sobre a meta de inflação é legítima e necessária. Ele sugere que a meta deveria ser definida com base em um debate técnico aprofundado, considerando as particularidades da economia do país.

Sua visão é que perseguir uma meta muito baixa pode exigir um custo social elevado, com juros altos por tempo prolongado, prejudicando o crescimento econômico e o emprego. Essa postura o alinha às preocupações expressas publicamente pelo presidente Lula.

Apesar do rótulo de heterodoxo, analistas de mercado apontam que Picchetti é um acadêmico respeitado e com profundo conhecimento técnico. Sua nomeação, embora sinalize uma mudança de perspectiva, não é vista como uma ruptura radical com a responsabilidade fiscal e monetária.

A sabatina no Senado será um momento crucial para que Picchetti detalhe suas visões sobre a condução da política monetária, o sistema de metas de inflação e os desafios atuais da economia global e brasileira. A aprovação é considerada provável pelo governo.

📌 Leia mais: Veja mais notícias sobre tecnologia e mercado financeiro


📱 Siga o FintechNode no Instagram para não perder nenhuma novidade do mercado financeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like

IA: Previsões de 70 anos atrás que são realidade hoje

Pioneiros como Alan Turing previram a IA generativa e o aprendizado de máquina há 70 anos. Entenda como as ideias de 1950 moldam a tecnologia atual.

Venda de Rayan à Premier League: o ativo do futebol

A transferência do jogador Rayan, do Vasco da Gama, para a Premier League ilustra como atletas se tornaram ativos financeiros valiosos para os clubes. Saiba mais.

B3 Dados: Nova marca une negócios de R$ 2,9 bi em aquisições

B3 consolida Neoway, Neurotech e seus serviços de dados sob a nova marca B3 Dados. Saiba como a empresa busca destravar valor neste segmento em crescimento.

Ferrari 12Cilindri: V12 de 830 cv chega por €395 mil

A Ferrari lança o 12Cilindri, sucessor da 812 Superfast. Com motor V12 de 830 cv e design inspirado na Daytona, o modelo vai de 0 a 100 km/h em 2,9s.